Aqui está um número que pode te surpreender: ao longo da história humana, as pessoas consumiram mais de 7.000 espécies diferentes de plantas.1 Sete mil. Pense nisso por um segundo.
Hoje, 17 culturas fornecem 90% de todas as calorias consumidas na Terra.2 Um pequeno grupo de nove culturas, incluindo cana-de-açúcar, milho, arroz e trigo, responde por mais de 66% da produção global de culturas por peso.3
Passamos de 7.000 plantas para 17 culturas, fazendo quase todo o trabalho. E as plantas que ficaram para trás? Muitas delas eram mais nutritivas do que as que ficaram.
Não se tratava de nutrição
As culturas que dominam o sistema alimentar de hoje não venceram porque eram as melhores para a saúde humana. Venceram porque funcionavam para a agricultura industrial.
Eles poderiam ser cultivados em fileiras enormes e uniformes. Colhidos por máquina. Embalados, enviados e armazenados por meses sem estragar. Vendidos em mercados globais que precisavam de um suprimento consistente e previsível.
Plantas que não se encaixavam nesse modelo, por mais nutritivas que fossem, por mais tempo que as comunidades as consumissem, foram silenciosamente descartadas. Não porque alguém decidiu que eram inferiores. Simplesmente porque não eram escaláveis.
Desde o início de 1900, cerca de 75% da diversidade genética de plantas foi perdida. Mais de 90% das variedades de cultivos que antes existiam em campos agrícolas desapareceram.45 Uma revisão de 2024 em Nutrição em Revista descreveu o resultado de forma clara: o sistema alimentar moderno levou à “superprodução de plantas com valor nutricional insatisfatório, enquanto espécies vegetais ricas em nutrientes usadas em épocas anteriores permanecem negligenciadas.”6
Em outras palavras, otimizamos para logística, não para nutrição. E essa lacuna se reflete em nossa saúde. Pesquisadores estão cada vez mais associando esse estreitamento da dieta ao aumento das taxas de deficiência de micronutrientes e doenças crônicas em todo o mundo.78
O Brasil Tinha Um Nome Para o Que Ficava Para Trás
Enquanto a agricultura industrial estava estreitando a oferta global de alimentos, algo mais estava acontecendo no Brasil.
Comunidades rurais, especialmente comunidades indígenas e pequenos agricultores, continuaram a se alimentar de uma gama muito mais ampla de plantas. Plantas que cresciam selvagens nas beiras das estradas e nas bordas das florestas. Plantas que seus avós comiam. Plantas que não tinham lugar em nenhum supermercado, mas que alimentaram as pessoas por gerações.
Em 2007, um botânico brasileiro chamado Valdely Kinupp decidiu que essas plantas mereciam um nome adequado. Em sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele cunhou o termo plantas alimentícias não convencionais também conhecidas como PANCs.9 Traduz para “plantas alimentícias não convencionais”. Não exóticas. Não superalimentos. Apenas plantas que são comestíveis, frequentemente muito nutritivas e negligenciadas pelo sistema alimentar tradicional.
O Brasil é um dos países com maior riqueza de plantas na Terra, abrigando aproximadamente 15–20% da diversidade biológica mundial.10 Ainda assim, mesmo lá, a maioria das plantas comestíveis passa despercebida. Em seu catálogo de 2014, os botânicos Kinupp e Lorenzi identificaram 351 plantas com potencial alimentar que os brasileiros haviam em grande parte esquecido ou nunca souberam que poderiam comer.11 Em 2017, a Plataforma de Conhecimento para Agricultura Familiar da FAO apresentou a Guia Prático de PANC, um guia prático de plantas alimentícias não convencionais, sinalizando o interesse institucional no tema em nível internacional.12
O que torna as PANCs interessantes não é apenas o seu valor nutricional. É a sua resiliência. Muitas crescem com o mínimo de cuidado, adaptam-se às condições locais e prosperam em locais que a agricultura convencional ignora. A FAO classificou formalmente certas plantas negligenciadas como “Alimentos Inteligentes para o Futuro”, definidos como espécies densas em nutrientes, resilientes ao clima, economicamente viáveis e localmente disponíveis.13 Isso não é uma afirmação de marketing de bem-estar. Isso é uma designação de segurança alimentar.
Ora pro nobis: A PANC Que as Comunidades Recusaram Esquecer
Das milhares de PANCs no Brasil, uma se destaca: Ora-prô-nobis Miller, conhecido como ora pro nobis.
É uma verdura folhosa da família dos cactos, com folhas macias, trepadeira e nativa da região da Mata Atlântica do Brasil. É consumida em Minas Gerais e arredores desde o período colonial.
As folhas contêm um mucilago natural, uma fibra solúvel formadora de gel composta de arabinogalactano, um polissacarídeo complexo que apoia a digestão saudável e a motilidade intestinal. É provável que seja por isso que as pessoas que o adicionam à sua rotina frequentemente relatam menos inchaço e mais conforto digestivo. A fibra alimenta o intestino da maneira que a fibra deve ser: suavemente, consistentemente, sem drama.14,15
As folhas também são ricas em antioxidantes, carotenoides, incluindo beta-caroteno, luteína e violaxantina, além de flavonoides e compostos fenólicos, bem como minerais, incluindo magnésio, cálcio, ferro e manganês. Tudo isso em apenas uma colher de chá de pó seco. Sem misturas, sem enchimentos, nada adicionado.14,15
Então, por que você nunca ouviu falar disso?
Porque não funciona para a agricultura industrial. As folhas são macias e não transportam bem em escala. Cresce melhor em pequenas hortas de policultivo cuidadas à mão, não em campos de monocultura operados por máquinas. Tudo o que a indústria alimentícia precisa, ela não é.
A planta sobreviveu não por causa das forças de mercado, mas porque as pessoas continuaram a cultivá-la e a comê-la quando precisavam. O próprio nome carrega essa história: ora pro nobis é latim para “orai por nós”, palavras de uma oração católica que se dizia que comunidades pobres e rurais sussurravam enquanto colhiam a planta, alimentando-se discretamente daquilo que crescia nas margens de um mundo que lhes dava pouco mais. Segundo o folclore brasileiro, enquanto os olhos da congregação estavam fixos no altar, escravos escapavam para recolher o que podiam dos arbustos que cresciam perto dos muros da igreja.
Foi um ato de sobrevivência. E acabou sendo um ato de sabedoria nutricional.
O que isso significa hoje
A ciência está cada vez mais clara: comer uma variedade restrita de alimentos não é apenas entediante, tem consequências reais. Uma dieta menos diversa significa menos micronutrientes, menos variedade de fibras, menos compostos vegetais protetores e, com o tempo, maior risco de doenças crônicas que agora são as principais causas de morte na maioria dos países.
As PANC não são uma tendência ou um interesse de nicho. Elas fazem parte de uma conversa crescente em ciência de alimentos e agricultura sobre como construir um sistema alimentar mais nutritivo e resiliente, um que utilize o conhecimento botânico que a agricultura industrial deixou para trás.8
Nossa ora pro nobis começa com um único agricultor no Brasil, alguém que a cultivou primeiro para si e sua família, do jeito que as famílias de sua região fazem há gerações. Quando ele viu a oportunidade de compartilhá-la, estávamos lá para encontrá-lo. Nós a compramos diretamente dele, secamos, moemos e a levamos a pessoas que nunca tiveram acesso a ela antes. Sem misturas. Sem enchimentos. Sem listas de ingredientes que precisam de um dicionário. Apenas uma planta, de origem única, cultivada com intenção. É disso que se trata a nobis.
Apenas uma planta que a agricultura industrial decidiu que não valia a pena escalar, e comunidades que sabiam que valia a pena manter.
Fontes
- Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. (s.d.-a). Efeito da atividade humana na biodiversidade: Segurança alimentar. https://www.fao.org/agriculture/crops/thematic-sitemap/theme/spi/soil-biodiversity/effect-of-human-activity-on-biodiversity/food-security/en/
- Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. (s.d.-b). Biodiversidade e nutrição: Um caminho comum. Divisão de Nutrição e Proteção ao Consumidor da FAO. https://www.fao.org/fileadmin/templates/food_composition/documents/upload/Interodocumento.pdf
- FAO. (2025). O Terceiro Relatório sobre o Estado dos Recursos Genéticos Vegetais para a Alimentação e a Agricultura. FAO. https://openknowledge.fao.org/items/368ec1f9-0897-4c37-b6c7-a65678ebb4b8
- Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. (2005). Construindo sobre gênero, agrobiodiversidade e conhecimento local: Um manual de treinamento. FAO. https://www.fao.org/4/y5609e/y5609e02.htm
- Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. (2019). O Estado da Biodiversidade Mundial para a Alimentação e Agricultura. FAO. http://www.fao.org/interactive/state-of-biodiversity-for-food-agriculture/en/
- Knez, M., Ranić, M., & Gurinović, M. (2024). Plantas subutilizadas aumentam a biodiversidade, melhoram a segurança alimentar e nutricional, reduzem a desnutrição e aprimoram a saúde e o bem-estar humano: Vamos colocá-las de volta no prato! Nutrition Reviews, 82(8), 1111–1124. https://doi.org/10.1093/nutrit/nuad103
- Ali, A., & Bhattacharjee, B. (2023). Segurança nutricional, restrições e estratégias de agrobiodiversificação de culturas negligenciadas e subutilizadas para combater a fome oculta global. Frontiers in Nutrition, 10, 1144439. https://doi.org/10.3389/fnut.2023.1144439
- Purba, N. H., & Krishnaswamy, K. (2025). Explorando os potenciais de culturas negligenciadas subutilizadas (NUCs): uma revisão integrativa para o desenvolvimento de um modelo de sistema alimentar sustentável. npj Science of Food, 9(1), 199. https://doi.org/10.1038/s41538-025-00554-0
- Kinupp, V. F. (2007). Plantas alimentícias não convencionais da região metropolitana de Porto Alegre [Tese de doutorado]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). https://lume.ufrgs.br/handle/10183/12870
- Convenção sobre Diversidade Biológica. (s.d.). Brasil – perfil do país. https://www.cbd.int/countries/profile?country=br
- Kinupp, V. F., & Lorenzi, H. (2014). Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: Guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. Instituto Plantarum de Estudos da Flora.
- Instituto Kairós. (2017). Guia prático de PANC: Plantas alimentícias não convencionais. Instituto Kairós. https://web.archive.org/web/20210430224101/https://institutokairos.net/wp-content/uploads/2017/08/Cartilha-Guia-Pr%C3%A1tico-de-PANC-Plantas-Alimenticias-Nao-Convencionais.pdf
- Li, X., & Siddique, K. H. M. (2018). Futuro da alimentação inteligente: Redescobrindo tesouros escondidos de espécies negligenciadas e subutilizadas para a fome zero na Ásia. Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/c96d9929-584c-4e8b-b1b9-b68068a8bec9/content
- Silva, N. F. N., Silva, S. H., Baron, D., Neves, I. C. O., & Casanova, F. (2023). Pereskia aculeata Miller como uma nova fonte de alimento: uma revisão. Foods, 12(11), 2092. https://doi.org/10.3390/foods12112092
- Takeiti, C. Y., Antonio, G. C., Motta, E. M. P., Collares-Queiroz, F. P., & Park, K. J. (2009). Avaliação nutritiva de uma hortaliça folhosa não convencional (Pereskia aculeata Miller). International Journal of Food Sciences and Nutrition, 60(S1), 148–160. https://doi.org/10.1080/09637480802534509